04/09/11

escrita criativa

A escrita possui armas poderosas para se manter como um dos meios comunicativos mais utilizados na história. Ela se mantém intacta ao passar dos anos (diferentemente do acordo oral, no qual "quem conta um conto aumenta um ponto") e, por isso mesmo, exige um certo esforço do escritor para que ela represente um documento de qualidade, seja em relação a semântica, sintaxe, ortografia ou linguagem. Mas a arma que transforma a escrita, a meu ver, num meio tão importante, é o fato de que certas coisas só podem ser descritas através dela; coisas que, se ditas de outra forma, soariam estranhas, incompreensíveis, ou simplesmente ridículas. Imaginem só, se Freud decidisse subir num palanque para declamar seus pensamentos filosóficos ao invés de escrevê-los; ou se as propagandas de computadores começassem a exaltar os detalhes técnicos do disco rígido. Da mesma forma, há vezes em que um sentimento, se não for descrito no momento sentido (e mesmo assim, descrevê-lo torna-se um desafio e tanto), torna-se algo impossível de dizer e impossível de compreender e muitas vezes a escrita dispõe de meios muito mais eficazes para tratar de certos assuntos. Por exemplo, um jogo de futebol. Mas não qualquer jogo, aquele que abre o segundo turno, contra um rival tradicional e que mata a saudade do torcedor que não comparecia ao Pacaembu desde o começo do ano. Mas este exemplo ainda não é emblemático o suficiente. Já sei, um jogo de arbitragem confusa, de pênalti inventado, de golaço de falta, de duas expulsões e de pressão até o fim do time visitante, que precisava de um gol para empatar. Esse exemplo é bom.
O bom leitor (que entende de futebol, já que para mim, bom - e entenda este bom como o contrário de mau - é quem entende de futebol) já associou este exemplo à partida do Corinthians contra o Grêmio, da última quarta. Desde aquele jogo, venho tentando expressar o que senti depois da expulsão de Edenilson e da pressão gremista pelo terceiro gol, que empataria o jogo. Não consegui. Tentei dizer que me senti feliz por estar ao lado da torcida, que apoiou, a plenos pulmões, por 25 minutos; que me senti emocionado com a garra dos nove jogadores. Mas senti muito mais. Senti um vigor, como se eu tivesse a força de 15 mil pessoas. Senti amor, paixão em seu estado mais carnal. Senti afeto por todos aqueles de camisa alvinegra ao meu redor. Me senti Ulisses. Me senti Zeus.
Há alguns posts, comentei a força da torcida. Como uma massa tão heterogênea consegue produzir um som tão uníssono, tão poderoso. E realmente poderoso, pois afirmo (e desprezo aqueles que o negam) que a torcida foi sim um décimo segundo jogador, que energizou os jogadores, empurrando-os, jogando-os, atirando-os na direção da bola com uma vibração impressionante. Um bando de loucos que tem orgulho de expressar sua loucura.
Seria no mínimo estranho dizer algo assim numa roda de discussões futebolísticas, ou até mesmo numa conversa mais íntima. Ninguém se comunica, em público, dessa forma. Sendo assim, a escrita se apresenta como um ótimo meio de descrever algo da maneira que bem lhe convém.

01/08/11

Inspiração

Muitas pessoas perguntam a segundos, terceiros, quartos, de onde vem a inspiração. Sendo eu uma dessas pessoas, não serei capaz de lhes responder essa pergunta. Mas hoje vivenciei tantas experiências, tão ecléticas e dissonantes entre si, que agora, às 22:48, posso dizer que vivo um particular momento de inspiração. Se bem me lembro, neste dia que começou às 5:55 da manhã, despertei ao som de Led Zeppelin, fui de carona até o cursinho, onde refleti sobre química, geografia, matemática, biologia e física. Mais tarde, assisti a um filme de suspense, seguido de uma caminhada até minha casa, onde recebo a notícia de que minha mãe realizou uma enorme pesquisa investigativa com o fim de descobrir o paradeiro de um namorado da minha avó, dos tempos de Auschwitz. Por fim, li dois textos maravilhosos sobre o jogo entre Santos e Flamengo e só então canalizei estas forças inspirativas neste post.
A inspiração, portanto, pode ser vista como uma espécie de sonho, no qual os ocorridos e refletidos de um dia são fundidos numa grande massa, cujo resultado final, muitas vezes, é incompreensível ou simplesmente estranho. Deus sabe o que aconteceu nas vidas de Neymar e Ronaldinho antes deste jogo para que seus sonhos, suas inspirações produzissem um resultado tão fantástico. Mas ao que quer que tenha acontecido, sou grato por isso.
Até agora não vi o jogo. Enquanto ocorria, segui os lances por escrito, enquanto via alguns vídeos com momentos marcantes, como o terceiro gol do Santos, de Neymar. Para nós, mortais, é inconcebível sequer pensar em executar uma finta como aquela em tamanha velocidade. Neymar parou o tempo por um segundo, rolou a bola do pé direito para o esquerdo que, com um leve toque, empurrou a bola para a frente, à esquerda do marcador, enquanto seu corpo continuava sua trajetória curvilínea, dando a volta pelo zagueiro e encontrando a bola nas costas do próprio. Uma meia lua impecável, inovadora. A única reação do flamenguista após o lance foi abrir os braços em sinal de "o que acabou de acontecer?". Coisa de sonho.
E da mesma maneira, como é possível que no mundo das coisas alguém tenha a frieza de - no segundo tempo, fora de casa, com a responsabilidade de ser o craque do time, perdendo por 4 a 3 - cobrar uma falta rasteira, enganando barreira e goleiro para empatar o jogo (e mais tarde virá-lo)?
Inspiração traz inspiração e tomara que este jogo, que foi um autêntico sonho, sirva de luz para os que restam neste campeonato e nos próximos, para que o futebol brasileiro possa reaver seu posto de rei do futebol.

04/07/11

Abaixo a Seleção!

Hoje, durante o sonolento jogo da seleção, contra a Venezuela, me deparei com uma situação muito recorrente, mas que nunca tinha me feito pensar como hoje. Estava eu na sala e ao meu lado se encontrava a mais fervorosa das torcedoras que conheço, Ivone, mulher de meu pai. Já acompanhei inúmeros jogos ao seu lado, mas nunca a vi gritar tão alto e com tanta força quanto hoje. A cada passe errado, a cada oportunidade desperdiçada ouvia-se uma cachoeira de xingamentos e reclamações. Parecia que ela estava no estádio, oferecendo a alma pelo brilhantismo dos jogadores. A cena em si não configura nada muito surpreendente (aliás, o mais surpreendente era o fato de que a maioria das suas reclamações batiam com as dos comentaristas), mas para mim era algo impressionante. Nunca a vi gritar dessa maneira num jogo do São Paulo, seu "time do coração". Talvez o planeta corintiano, meu e de meu pai, tenha sugado o fraco satélite tricolor para sua órbita, eliminando a possibilidade da existência de um torcedor são paulino na galáxia do apartamento 42. Assim, sem a possibilidade de cantar pela equipe pela qual sempre torceu, a seleção apareceu como um grande porto seguro, ao qual poderia torcer a vontade, sem transtornar os homens da casa e sem negar suas origens são paulinas. Todos gostam da seleção.
Já na minha realidade, alguém que coloca a seleção à frente de um clube é tachado de infiel, torcedor fajuto e até vira-casaca. Depois de tantos anos observando um futebol pífio, o amor pelo esquadrão brasileiro murchou e agora, torcer para o Brasil tem tanto valor quanto torcer para um time europeu, ou seja, não há paixão real, há apenas um desejo de que o time ganhe, mas se não vencer, não há motivos para tristeza, não é o meu time que está jogando. Os jovens torcedores, aliás, não gostam da seleção, ela rouba jogadores. Afinal, o São Paulo ainda poderia ser líder com Lucas em campo; talvez o Santos não precisasse de tanto esforço para bater o América-MG com suas estrelas jogando. Por que tenho que ceder meus melhores jogadores a uma outra equipe? E que vantagem essa competição trará? Se Neymar brihar, não ficará ainda mais perto da Europa?
Sendo assim, presenciar a imagem de alguém dando mais de si pela seleção do que por um clube foi algo realmente chocante. Ver Ivone gritando a plenos pulmões: "CHUTA SEU BURRO!", "PASSA A BOLA DIREITO!" me trouxe um pouco da paixão que tenho pelo time brasileiro e pouco depois me vi gritando ao lado dela.

15/06/11

pênalti

Especialistas no ramo da psicanálise concordam que uma pessoa precisa passar por certas experiências para poder crescer, amadurecer. Brigar com os pais, apanhar, levar um fora, ser traído, todas estas são ocasiões que, por serem inusitadas, exigem uma atitude diferenciada daquele que as recebe que, por sua vez, a medida que é atingido, cria diversas maneiras de lidar com tais experiências. Alguém que não enfrentou essas vivências até a vida adulta certamente terá dificuldades em encarar uma frustração da vida cotidiana. Uma bronca do chefe, ou até mesmo um arranhão no joelho será, para este indivíduo, uma situação de extrema tristeza e desilusão, levando-o, em casos extremos, ao suicídio.
Não sou psicanalista, mas afirmo, com muita segurança, que uma dessas experiências é a do pênalti. Ninguém sabe do que é capaz, ninguém sabe o que é ser pressionado até ter que cobrar ou defender um pênalti. Os dois lados são intensamente e indescritivelmente tensos e emocionantes.
O cobrador lida com uma pressão monumental. A pressão de pelo menos um milhão de loucos apaixonados, que fariam qualquer coisa pelo clube, inclusive esganar um pobre atacante que perdeu o pênalti decisivo. A pressão de estar na situação mais favorável possível: bola parada e ajeitada a onze metros da baliza, sem nenhum marcador entre ele e o gol, apenas um goleiro estático à sua frente, que irá se mover apenas no último instante. A pressão da liberdade, de poder chutar onde quiser e contar com o elemento surpresa. A pressão de ter a bola do campeonato, de se tornar um herói, uma lenda. Imagine pensar em tudo que este pênalti significa enquanto coloca a bola na marca de cal e toma distância para o arremate, à medida que levanta a cabeça e vislumbra os milhares de torcedores que o aplaudem e gritam o seu nome. O quão amedrontador é ser o protagonista? Nada se compara a essa pressão.
E do outro lado se encontra aquele destinado a acabar com o sonho deste atacante. O goleiro está na situação oposta à do cobrador. Para ele, não há pressão, não há responsabilidade, ninguém o culpará por não defender o lance mais indefensável do futebol. Mas todos o glorificarão caso defenda o pênalti. O arqueiro se encontra na circunstância mais agradável possível, embora esteja na situação mais complicada para alguém em sua posição. Por mais que à sua frente se encontre o artilheiro do time adversário, livre para chutar com a força que quiser e onde quiser; e por mais que seus movimentos estejam limitados a se mover para os lados, este goleiro sabe que o batedor carrega uma pressão mais pesada que o estádio do Maracanã.
A grande pergunta é, quem está em vantagem? O cobrador, por ter o gol aberto à sua frente, ou o goleiro, por ter a mente livre de olhares maliciosos?

07/06/11

o antropofágico futebol ronaldal

Muitos, incluindo este que aqui escreve, ficam extremamente incomodados com o codinome de Ronaldo: fenômeno. Para estes muitos, o apelido foi criado pela Globo e, portanto, foi criado basicamente por questões publicitárias. Se havia um novo Ronaldinho (o gaúcho), Ronaldo precisava de um nome para ser diferenciado. E este "fenômeno", que é mesmo um fenômeno, agora é um segundo nome, para um jogador que de tão fenomenal, deveria ter seu nome nos dicionários como um adjetivo refinadíssimo, usado em ocasiões extremamente especiais, como num voto de casamento, ou num comentário sobre o prato da avó, ronaldal. Imaginem que incrível seria ser elogiado com uma palavra que remete a um personagem tão ilustre. Ronaldo não deveria precisar de um adjetivo (até por que nenhum adjunto adnominal é suficiente para qualificar sua carreira), seu próprio nome já é adjetivo suficiente para descrevê-lo.
Um de meus primeiros textos sobre futebol foi baseado neste grande jogador. Meu pai, um de meus confidentes futebolísticos, comentou que via em Ronaldo o primeiro ou segundo depois de Pelé. Certamente, esse é o tipo de comentário que merece, ao menos, um chopp e uma fomentada discussão. O período de tempo entre as épocas de glória de Pelé e Ronaldo, é extenso o suficiente para que pelo menos vinte jogadores platonicamente excepcionais tenham mostrado sua grandeza, antes da aparição do "fenômeno". Zico, Ademir da Guia, Falcão, Rivelino, Sócrates, Careca, Raí, Romário, Túlio Maravilha, Roberto Dinamite, Kruyff, Beckenbauer, Zidane, Platini, Baggio e Figo são alguns exempos. Mas nem mesmo Maradona poderia destronar Ronaldo de seu posto confortável na mente de meu pai. A resposta: nenhum destes se compara ao que o artilheiro das copas fez em pouco mais de quinze anos de carreira. O porquê: por mais incrível que tenha sido o futebol jogado por estes craques, nenhum se iguala ao praticado pelo fenômeno; só o jogo de Ronaldo era ronaldal. Um jogo plástico, rápido, eficiente, envolvente, lento, feio, catimbeiro, oportunista, forte, corpal, leve, angustiante, imprevisível, previsível. Ronaldo colocou em prática o antigo moderno canibalismo brasileiro e criou um futebol antropófago. Um futebol com a elegante potência dos holandeses; com a dura beleza dos italianos; com a calorosa habilidade dos espanhóis; com o catimbado gingado brasileiro.
Não tenho certeza se Ronaldo é o segundo ou sequer o terceiro melhor da história, mas que o antropofágico futebol ronaldal merece cadeira cativa, na seleção de lugares reservados para aqueles que transformaram este esporte em obra de arte, merece.
De qualquer maneira, obrigado Ronaldo, por oferecer ao mundo este espetáculo que é o seu futebol, que já fez crianças como eu caírem de joelhos ao presenciar tanto brilhantismo pela primeira vez na vida. Obrigado por ressucitar um time com a sua própria ressureição e por encantar uma torcida com tanta simplicidade.

27/05/11

gol do pet

"O árbitro contou a distância da falta, os 9,15 m da barreira, e ninguém tentou cortar um pouquinho o pensamento do jogador. Se um tenta agredir a bola, aí o árbitro vai mandar voltar. Depois um outro agride, ele vai dar cartão, mas que se dane! Se agride o time todo, ele não ia mandar repetir. Mas isso é futebol." (Joel Santana, técnico do Vasco na decisão).
É impressionante como o mundo contribui para que só um golaço de falta na gaveta aos 43 do segundo tempo, possa fazer com que o Flamengo seja campeão. O jogo poderia se desenrolar de muitas formas, o Vasco poderia confirmar seu favoritismo e sua vantagem aproveitando as chances perdidas; o Flamengo poderia ter se resguardado melhor para não levar um gol e não precisar do terceiro. Mas o futebol pede, clama, implora pelo terceiro gol. E vindo de um jogador que não tinha recebido o salário do mês, que tinha rusgas com diversos jogadores e com parte da torcida. 
O futebol é feito de detalhes inexplicáveis, que em qualquer ocasião que não a do jogo, ocorreriam de forma completamente diferente. O chorado gol de Basílio no título paulista do Corinthians, em 77; o frango de Rogério na final da Libertadores em 2006; a bola que triscou a trave mas não entrou, no drible da vaca mais fantástico da história (feito pelos pés do Rei). O fato de o detalhe ser um fator tão decisivo é um dos marcos do futebol. Em outros esportes, o detalhe também existe, mas só no futebol, talvez pela escassez de pontos, em relação aos outros esportes (como no basquete,  ou no vôlei, ou no handebol, nos quais centenas de pontos são marcados por jogo, enquanto que uma partida de futebol é muito celebrada quando três ou quatro gols são marcados), o detalhe é tão significativo e tão recorrente. 
Este gol, de Petkovic, nunca mais ocorrerá novamente. Nem mesmo se um jogador, tão habilidoso quanto o sérvio, cobrasse uma falta à mesma distância do gol, com a mesma força, na mesma direção e ela caísse no mesmo lugar. Não seria a mesma coisa. Este gol é uma pintura, uma obra de arte: não importa o número de cópias, o original sempre será único. E o mesmo ocorre com qualquer golaço, com qualquer título, com qualquer tragédia. São todos momentos antológicos e inesquecíveis, resultantes de peculiaridades ínfimas por si só, mas gigantescas pelo que representam.  
A bola viajou, em câmera lenta. Uma imagem fantástica, divina. Cinqüenta mil mãos estendidas no ar, controlando o seu curso. Uma mão a menos e aquele toque do goleiro mudaria o seu destino.

25/05/11

paixão x ponderação

No mundo há dois grandes grupos de pessoas, aqueles que se mantém de pé durante uma partida inteira, gritando, cantando e xingando e aqueles que, no calor do jogo, não movem sequer um músculo e, estáticos soltam um comentário, frio e preciso sobre o mau posicionamento do terceiro zagueiro ou sobre a falta de cobertura do lateral esquerdo.
Para os primeiros, românticos e apaixonados, não importa o que aconteça, o seu time sempre está sendo roubado. Se o atacante cai na área, é pênalti indiscutível e se o mesmo ocorre com um adversário, nada deverá ser marcado, foi simulação clara. Qualquer atitude do juiz que não corresponda a estas marcações é trapaça, bandidagem, máfia, realizada por um árbitro corrupto que se vendeu ao adversário, que, por sua vez, mostrou mais uma vez suas atitudes deploráveis ao subornar um juiz na cara dura. Para este torcedor, a vida é uma catástrofe e existem apenas dois refúgios para tanta mágoa, um bar e um estádio. No estádio, os xingamentos escandalosos, os cânticos monumentais, as tempestades que o encharcam dos pés à cabeça (para ele, estar debaixo da chuva é um sinal de devoção, de força) o consolam como uma cachaça o faria e todas as dores são afogadas por manifestações exageradas de paixão.
Para os outros, os céticos, o jogo deve ser analisado, não chorado. Este torcedor, por maior que seja sua paixão pelo clube, possui olhos críticos e julga o que acontece no gramado com classe e imparcialidade. Para ele, um juiz pode estar corretíssimo ao marcar um pênalti para o adversário, ou muito equivocado numa marcação favorável ao seu time. Não acha certo que o árbitro seja chamado de ladrão ou um atacante de mercenário, afinal, é um absurdo xingar uma pessoa de bem com nomes tão ofensivos, já que qualquer um está sujeito a falhas. Suas ponderações são sempre precisas e corretas. Torcer, para ele, significa apontar os erros e elogiar os acertos. Os adeptos deste grupo, aliás, não deveriam se chamar torcedores, mas sim, comentaristas.
Eu, particularmente, prefiro os erros apaixonados.
 

23/05/11

o melhor campeonato do mundo

Neste fim de semana começou o melhor campeonato do mundo, o brasileiro. Alguns, tolos, afirmam que o brasileirão é fraco por não ter grandes craques, como na Europa. Outros dizem que a falta de grandes jogadores é o menor dos problemas, que a estrutura de diversos estádios e os erros de arbitragem fazem desta liga uma das piores do planeta. Não discordo destas afirmações, mas discordo do ponto em que são vistas como negativas.
As ligas inglesa, italiana, francesa, espanhola e alemã são caracterizadas por abrigarem jogadores de destaque mundial, por possuírem estádios de última geração, nos quais milhares de torcedores têm grande prazer em assistir seus clubes - ricos e poderosos e que pagam seus atletas em dia - praticarem um futebol quase isento de violência ou pênaltis roubados; enquanto desfrutam de um lanche saboroso e de um clima agradável nas cadeiras numeradas. Certamente, tais qualidades são fruto de uma federação esportiva bem organizada, que suporta a união entre as equipes de seu país, que por sua vez, possuem ótimos contratos de imagem e de patrocínio.
É inegável o fato de que um campeonato tão bem articulado e estruturado seja um deleite para os olhos de qualquer espectador. Mas, como sempre, a perfeição é chata.
A graça de uma liga européia está na habilidade de alguns jogadores; a graça da brasileira está em tudo. O torcedor pode escolher se revoltar contra a diretoria, técnico, jogador, cartola, agente, patrocinador, televisão, ou simplesmente, presidente(a) da república. É empolgante acessar um site ou ler uma matéria esportiva, porque a decadência é excitante. Por outro lado, em qualquer partida temos jogadores que se sobressaem, que quebram expectativas e que nos lembram dos grandes do passado. O campeonato brasileiro não tem dois ou três favoritos; tem dez, ou mais. A primeira rodada, neste último fim de semana, é emblemática. Em dez confrontos, tivemos quatro triunfos de visitantes, gritos de "burro" por parte dos tricolores cariocas, favoritos perdendo para times como Atlético-GO e Figueirense, redenção de equipes até ontem muito criticadas e o renascimento do potencial melhor jogador do país. Em dez confrontos, apenas um empate. Tensões divididas entre todos os jogadores e todos os torcedores de todos os times. Rivalidades acentuadas, emoções inflamadas, começa o melhor campeonato do mundo (e com vitória do Corinthians)!

21/05/11

ambiguidades

A principal qualidade do futebol, em termos literários, é a sua riqueza de ambiguidades. Em qualquer aspecto futebolístico, do goleiro ao centroavante, do técnico ao presidente, da torcida às pichações; este esporte está repleto de paradoxos, que o fazem uma matéria muito interessante de ser estudada.
Anteriormente, mencionei algumas das ambiguidades da posição do goleiro. Por um lado, foi designado à posição e, como qualquer outro jogador, casualmente falha; por outro, guarda a região decisiva do duelo, sendo assim, uma falha necessariamente abre o caminho para uma eventual derrota. O que abre a questão: um goleiro pode falhar? E caso possa, por que a torcida o condena em qualquer falha, enquanto assiste passivamente a dezenas de gols e dividas perdidas no meio de campo?
Outros paradoxos se apresentam até mesmo fora de campo. Um deles segue o rumo tomado pelo futebol. Com o desenvolvimento capitalista, consumista, a tendência do futebol é a de acompanhar o sentido adotado por qualquer outra empresa, que é o da elitização em prol da lucratividade. Podemos enxergar este processo como natural e produtivo, em vista que, com mais capital inserido no esporte e em seus diversos meios (como estádios, museus, centros de treinamento, clubes, entre outros), o desenvolvimento destes setores cresce muito, o que traz um grande avanço do ponto de vista publicitário e de aprimoramento físico dos jogadores. Mas um maior investimento significa uma maior necessidade de retorno de dinheiro por parte dos consumidores deste produto (do futebol), os torcedores. Com estádios mais estruturados e tecnólogicos e com os altos valores que circulam dentro do meio futebolístico, o torcedor é obrigado a pagar mais caro pelo ingresso. E isso nos traz ao ponto em que a elitização (não só do futebol, mas de qualquer setor afetado por este processo) impõe uma barreira àqueles que não têm meios de pagar pelo serviço e, no caso do futebol, impede que uma grande massa de torcedores (que aliás, por diversas vezes, são mais devotos aos clubes do que os próprios freqüentadores dos estádios) compareça aos jogos, que muitas vezes não são transmitidos para a TV aberta. Ou seja, a elitização, embora traga um grande desenvolvimento para o futebol; faz com que milhares de pessoas sejam incapazes de assistir à uma partida do seu time de coração.     
Diversos outros pontos deste esporte tão brilhante em sua simplicidade, são riquíssimos em divergências como estas, e o que tentarei fazer, ao menos daqui em diante, é tratar destas questões para tentar, eventualmente, encontrar uma explicação, quando não somente explicitá-las com o intuito de deliciá-los com tão magnífica fonte literária.

16/05/11

derrota


Ao fim dos 49 minutos, eu chorei. Estava em casa, sentado, meu pai ao meu lado, minha avó na poltrona. Perdi completamente o controle sobre meus instintos e comecei a golpear, violentamente, o sofá, como uma criança, que desconta no brinquedo a dor de não ganhar um doce. Só lembro de minha avó, típica Idishe Mama, reclamando da minha infantilidade; e de meu pai, reclamando dela por seu ceticismo. Naquele momento, não havia nenhum pai, nenhuma avó, nenhuma reclamação, nenhum sofá. Havia a tristeza, como nunca tinha sentido. Era algo indescritível, uma dor interminável, alimentada pelo pensamento de que ela só aumentaria nos próximos dias, com o contato do mundo não corintiano. Na vida, assim como no futebol, a dor é recorrente. Mas apenas no futebol os amigos existem para agravar essa mágoa, já que muitos deles não torcem para o mesmo time.
A derrota no futebol é pontual e permanente. Por um lado, ela existe apenas no pós-jogo. O time perdeu. Ponto. Acabou. Mas qualquer torcedor sabe que o revés nunca será esquecido pelos rivais e a iminência dessa situação aumenta em muito a dor do resultado negativo. Aliás, em diversas oportunidades, senão na maioria delas, a aflição de imaginar o que esperar no dia seguinte é maior do que o sofrimento pela derrota em si. Sendo assim, a tristeza, nas palavras de Tom Jobim, "não tem fim", na medida em que qualquer torcedor adversário, na primeira oportunidade que tiver, irá relembrá-lo da derrota. No caso de uma dor tão intensa, como no caso de um rebaixamento, o amigo deixa seu posto de apaziguador, toma o papel de carrasco e o tortura, deixando evidente que a derrota aconteceu, foi real. Ao contrário de uma situação em que a dor é quase tão grande (como num terremoto que destrói sua casa ou numa queda que o deixa paralítico), na qual o amigo se esforça para que a ocorrência seja esquecida, como se nunca tivesse acontecido.

14/05/11

frango

Desde a mais tenra idade, até meus dezessete anos, eu fui goleiro. Aos que pouco me conheciam, dizia que tinha escolhido a posição por conta própria, devido a minha altura privilegiada. Aos que me conheciam mais a fundo, não havia o que fazer, senão baixar a cabeça, acatar a ordem de todos presentes em quadra e rumar para meu fatídico e injusto posto entre os postes. Ser goleiro, no colégio, é uma humilhação. É resultado de uma decisão grupal, unânime de que você irá atrapalhar o time caso fique em outra posição. Significa um golpe mortal na auto-estima de uma criança, que tem que admitir a si mesma que o futebol não é o seu forte, e que seus colegas estão realizando um grande ato de caridade ao deixá-la, ao menos, jogar no gol. Melhor do que não jogar. O problema é quando vem o frango. Ora, por que deveria esta criança ouvir as reclamações dos amigos pelo gol humilhante, quando foram os próprios camaradas que o elegeram para esta posição, sabendo de suas limitações. Se o pobre garoto não seria bom no ataque, na armação ou na defesa, o que faria dele um bom arqueiro? Afinal, por um lado, estar no gol, significa não estar na linha, ou seja, não há a possibilidade de atrapalhar um companheiro; mas por outro, significa estar na guarda do ponto mais cobiçado pelos atacantes. Não seria burrice, portanto, colocar um rapaz desprovido de agilidade e técnica num local tão crucial? Não importa. Garotos como este sempre existirão. E sempre que sofrerem um frango, serão dolorosamente castigados por seus colegas. Já no futebol profissional, o goleiro não é mais aquele que não sabe jogar; mas sim um jogador treinado, capacitado, que tem na agilidade, no reflexo e na coragem, seus pontos fortes. Ainda assim, pode-se fazer uma analogia entre aquele pobre garoto e o goleiro de uma grande equipe. Bem ou mal, o arqueiro não está na área adversária porque não sabe fazer gols; não está no meio campo porque não sabe passar a bola; não está na defesa, por não ser tão forte. No final das contas, ele está debaixo das traves por decisão do grupo e dele mesmo.
Quando um atacante perde um gol, ouve um "UUH", mas logo acompanhado de aplausos e gritos de apoio. Quando um goleiro sofre um frango, é duramente e injustamente castigado pelos milhares de torcedores, que não irão pensar em todas as dificuldades de guardar um posto tão ambíguo, que por se encontrar na extremidade do campo se trata do local menos percorrido pelos jogadores, mas que por isso mesmo representa um símbolo de vitória, um prêmio àquele que conseguiu atravessar o mar de zagueiros e volantes para, gloriosamente, receber o seu troféu no ponto final de uma jornada épica. Se esta conquista foi alcançada através de uma falha do goleiro, méritos ao cavaleiro, que venceu a batalha; e fogo ao guardião insolente, que não exerceu seu papel de forma satisfatória e, por isso, merece ser punido. Como sempre, o mocinho, o goleador, foi nomeado o grande salvador, enquanto que aquele que foi ferido por tão nobre lutador, é o eterno malfeitor, simplesmente por ter se deixado ferir.
O frango é uma fatalidade, causada pela bola molhada, pelo ar rarefeito. Mas não importa o quanto um goleiro seja bom, o quanto faça defesas milagrosas; no momento em que frangar (e este momento sempre irá existir), será vaiado e xingado pelos espectadores daquela partida e será sempre marcado como o grande culpado pela derrota.

13/05/11

à Leda

Minha irmã, que simpatiza com o futebol, mas não é exatamente uma grande doutora no assunto, declarou, depois da vitória do Corinthians, nos pênaltis sobre o Palmeiras, que não compreende como eu posso celebrar um resultado que, apesar de positivo, veio após uma apresentação pífia do elenco alvinegro em contrapartida a uma bela atuação dos palmeirenses. Digo que não só comemoro a classificação, mas também comemoro a classificação obtida nessas situações, ou seja, jogando mal, na casa do adversário e contra um arqui-rival que claramente foi  superior e que merecia a vitória. Neste caso, o orgulho vem à tona, e qualquer noção prévia sobre humildade é esquecida, e dá lugar a uma série de zombarias. A soberba de ter um discurso consistente, baseado em fatos (como o fato de que o Corinthians é finalista) em contraposição a uma argumentação abstrata, interpretativa (como dizer que o Palmeiras foi melhor em campo), é deliciosa, e é errado criticar quem se delicia com ela. Nem os roubos do juiz, nem as reclamações do Felipão, nem as críticas dos críticos mudam o fato de que o Palmeiras foi eliminado. Nada muda este fato. Enquanto que a atuação dos dois times, o critério do árbitro, a sorte de um, o azar do outro; todas estas observações estão submetidas ao duro olhar dos analistas e dos torcedores. Uns dirão que os cartões foram mal aplicados, outros, que o jogo foi perfeito. Mas nenhum dirá que o resultado foi outro, que as televisões mentiram para ter mais IBOPE, que todos os torcedores presentes no pacaembu se enganaram, que os de verde na verdade eram os corintianos tentando pregar uma peça. No final, o Corinthians venceu, e qualquer "vocês não jogaram nada", "o jogo foi um roubo" e "o paulistão é fácil, quero ver no brasileiro" pode ser respondido com um simples "quem está na final?".

09/05/11


Foi descoberta a proliferação do vírus titenias retranquíades nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. O vírus transmite a doença da empatite através do mosquito volantinóide, que se aninha, principalmente, em campos de futebol. A doença pode causar: perda parcial ou total de determinadas funções cerebrais, danificando o setor da criatividade; desanimo; retardamento das reações motoras e paulatina perda de visão, entre outros efeitos colaterias. O foco da doença se encontra entre os bairros da Pompéia e do Pacaembu e já foi confirmada em quase todos os jogadores do Sport Club Corinthians Paulista e da Sociedade Esportiva Palmeiras. Foi localizada também no bairro do Morumbi e em cidades como Santos e Campinas. Mas o estado mais atingido pela doença é o Rio de Janeiro, onde foram encontradas diversas vítimas, principalmente nos bairros do Flamengo, Botafogo, Laranjeiras e São Januário. Ainda não foram encontradas curas para a empatite, mas a cidade de Curitiba apresenta uma parcial imunidade à proliferação do vírus. Observações estão em processo nesta região para determinar a causa da imunidade. Neste meio período, estuda-se manter as equipes afetadas pela doença em estado de quarentena, para que não haja o risco de contaminação em massa. Casos de desânimo e falta de disposição já foram registrados em diversos torcedores dos clubes que mandam suas partidas nos estádios próximos aos bairros citados. Como forma de proteção, recomenda-se manter distância das áreas mais afetadas.          

(ilustração: Caco Bressane)

08/05/11

uma semana atípica

É interessante como alguns fenômenos, completamente atípicos e inusitados são facilmente esquecidos em questão de alguns dias. Esta semana que está terminando é emblemática, considerando a frase anterior. O casamento do príncipe inglês, a morte de Osama, a liberação da união homossexual; estes eventos contribuiriam para fazer desta semana, em tese, uma semana memorável, mas que, na prática, não a distinguem de nenhuma outra, já que a morte de Osama não aparece mais nos noticiários, as roupas do casamento do príncipe já devem estar fora de moda e os homossexuais não têm motivo para fazer barulho. As informações existem num número tão excessivo, que no fim nenhuma realmente importa. Mas, como sempre, o futebol contraria as estatísticas e deixa sua marca na mente das pessoas, que facilmente esquecem da morte do maior terrorista da década, para caçoar do amigo palmeirense. Amigo que tem motivos de sobra para ser caçoado, afinal, seu time foi exterminado pela equipe mais surpreendente do Brasil, o Coritiba. Assim, decreto que o porco se junta a times como Real Madrid, no grupo dos que assistirão o futebol pela telivisão, afinal, para quem não se lembra, a equipe merengue foi eliminada pelo Barcelona num confronto que finalizou uma épica sequência de quatro clássicos em duas semanas. Grupo que ganhou quatro integrantes ilustres, numa quarta-feira tenebrosa para o futebol brasileiro na libertadores. Integrantes que decidiram estaduais no fim de semana. Estaduais, como o paulista e o gaúcho, que ainda não conhecem seus campeões, diferentemente do carioca, vencido pelo Flamengo. Flamengo que finalmente foi derrotado, pelo Ceará, depois de inacreditáveis 32 jogos de invencibilidade e de futebol mau jogado. Invencibilidade ainda mantida pelo Coritiba, que atingiu a marca de 24 vitórias consecutivas ao golear o Palmeiras por 6 a 0.
Bem ou mal, faço parte do grupo de pessoas que facilmente se esquecem dos eventos que ocorrem durante a semana, mas que guardam os acontecimentos futebolísticos bem fundo na memória (vide o fato de que a quantidade de ocorrências futebolísticas, neste post, supera em muito o número de acontecimentos não voltados ao futebol). Bem ou mal, isso mostra que minha curiosidade e afinidade por futebol é muito maior que por mortes e casamentos.